“Todo mundo tem um tempo ruim, nós simplesmente não falamos sobre isso. Sentimentos negativos, fracassos, separações, perdas de emprego etc são vistas em nossa sociedade como imperfeições. Elas não se encaixam bem na foto, nem na vida real, nem aqui. Mas isso é bastante normal. Mas no Instagram há a constante comparação direta com os outros, não apenas em número de seguidores e curtidas. As outras pessoas têm a parceria mais bacana, a vida mais interessante, porém, você pode também ter resultados piores em outras áreas da sua vida.”

O relato é de uma “digital influencer” em artigo do DW intitulado “Como o Instagram recompensa nossos cérebros”.

Vale a pena lembrar:

Viver em função das curtidas do Facebook não é diferente… o mecanismo é o mesmo!

Mais de 500 milhões de pessoas usam o Instagram todos os dias – e esse número corresponde à população da União Europeia. Por que esta rede social é tão fascinante? O que acontece no nosso cérebro quando a usamos?

“Nós somos seres sociais”, diz Dar Meshi, neurocientista da Universidade Michigan State. Mesmo na Idade da Pedra era mais fácil sobreviver em grupo, obter recursos e se reproduzir.

Pela primeira vez, ele examinou pessoas de todo o mundo na Universidade Livre de Berlim que usam mídias sociais usando a ressonância magnética. O scanner cerebral mostrou quais regiões cerebrais são ativadas durante a postagem, a curtida e quando se é curtido.

Quando a pessoa tem uma foto curtida, ativa-se o sistema de recompensa, que fica ativo geralmente ao se alimentar, beber, em situações envolvendo dinheiro ou ao consumir drogas.

Nas redes sociais é fácil ativar essas pequenas recompensas sociais. A qualquer hora do dia podemos nos conectar com centenas ou milhares de pessoas e para isso não precisamos nem mesmo se levantar do sofá.

Para isso, Meshi não dá o nome de vício, pois, segundo ele, a palavra é muito forte. Nunca houve ninguém que tenha sido privado da custódia de seus filhos devido a demasiada dependência de redes sociais, como acontece com os viciados em heroína, diz.

Mas ele cita estudos e casos em que as pessoas tinham um sono de baixa qualidade, notas baixas na escola ou até perdiam seus empregos porque não conseguiam se afastar das mídias sociais por tempo suficiente.

Meshi descobriu em um estudo que as pessoas mais propensas a correr riscos são também as mais propensas a serem viciadas em drogas e em mídias sociais.

Em outros dois estudos, os pesquisadores perguntaram aos indivíduos várias vezes por dia por SMS se eles tinham usado o Facebook nos últimos cinco minutos e como eles se sentiam. Caso houvessem usado o Facebook, eles se sentiam piores. Porém, os pesquisadores não conseguiram dizer se isso devia ao fato de terem de refletir sobre seu comportamento perante os pesquisadores.

Mas eles descobriram que os usuários – que eram mais ativos, postaram mais e receberam mais curtidas – se sentiam melhores do que os usuários passivos.

Os pesquisadores suspeitaram que os usuários passivos comparam constantemente suas vidas reais com as vidas perfeitamente retratadas dos outros sem receber curtidas, até porque eles não postaram nada. Mas também pode ser que as pessoas, que já não estão em um dia bom, geralmente postam menos na rede social.

O mito da dopamina

Um neurotransmissor no cérebro, que é frequentemente associado às redes sociais, é a dopamina. Experimentos com dinheiro mostram que ele é espalhado já quando o indivíduo está esperando pelo sucesso. É assim que os pesquisadores explicam por que você continua agarrado às máquinas de jogos – ou por que você continua olhando para seu aplicativo no celular.

Meshi não pode confirmar se estão conectados a dopamina e o uso das mídias sociais. Mas ele também suspeita que a esperança de ativar o centro de recompensas torna a mídia social muito atraente.

Nosso centro de recompensas não é só ativado quando recebemos curtidas, mas também quando curtimos fotos ou simplesmente estimulamos nossa curiosidade em descobrir o que nossos amigos estão fazendo. Meshi explica isso afirmando que nosso status no grupo é muito importante para nós e queremos ser apreciados pelos outros.

Sempre em comparação

A professora de ética na mídia, Petra Grimm, também se pergunta se a vontade de comparar é inata ou cultural. Nós nos comparamos constantemente em plataformas como o Instagram. “Torna-se problemática quando a comparação leva à desvalorização ou é marcada pela superioridade”, sublinha.

A comparação permanente também pode impedir que jovens descubram realmente quem são. “Seu eu sigo influenciadores para receber orientações deles, por exemplo, sobre que roupa vestir, o que consumir ou como devo viver, e ao mesmo tempo tento me apresentar como único, eu dificilmente me concentro naquilo que são meus próprios desejos.”

Uma nova visão do mundo das redes sociais

Mas quem deve ser responsável pela saúde mental dos usuários das plataformas? As próprias redes sociais estão interessadas em manter os usuários em seus aplicativos nos celulares o maior tempo possível e ganhar dinheiro com isso. Dessa forma, elas fazem constantes testes para descobrir como manter a atenção dos usuários por mais tempo.

Grimm vê as plataformas como responsáveis. Mas ela diz que seria ingênuo esperar que elas mudassem algo por si mesmas e, assim, colocassem em risco seus modelos de negócios. É por isso que ela tem uma visão diferente. “Deveria haver algum tipo de modelo de direito público, de preferência em uma associação europeia”, afirma. “Uma plataforma que protegesse a privacidade, a proteção dos dados e a saúde mental.”

“Não podemos deixar que esses grandes players americanos nos ditem as regras”, sublinha. Ela espera que se consiga conquistar os influenciadores, que preferem se tornar ativos em uma nova plataforma segura e com regras claras – de acordo com o lema “Nós escolhemos o nosso próprio caminho”.