Já pelo título do filme é possível compreender muito da trama e dos personagens. “Boas intenções” chega essa semana aos cinemas com uma temática atual e complexa da sociedade francesa do século XXI.

A atriz Agnés Jaoui encarna a protagonista Isabelle, uma senhora de meia-idade que dedica sua vida ajudando refugiados em Paris, independente da sua nacionalidade. Ela ensina francês aos imigrantes e nos tempos livres, participa de distribuições de mantimentos nos subúrbios da cidade.

Isabelle é, no entanto, um retrato típico de indivíduos que exercem atos de caridade não em busca do bem estar alheio, mas sim para se redimir e culpar os demais pelas injustiças sociais.

O tempo que ela dedica aos imigrantes, dentro e fora da sala de aula, ela se distancia de seu marido, filhos e demais familiares. Cada reunião em família é repleta de declarações ácidas que Isabelle dedica aos gastos desnecessários de seus parentes e a ignorância deles em relação à origem dos produtos que consomem, sempre se isentando de qualquer responsabilidade.

A protagonista se sente confortável por ajudar e não se importa com o fato de se afastar dos demais nesse processo. O próprio marido de Isabelle afirma em um momento do filme que para ela apenas pessoas refugiadas, mutiladas e miseráveis são dignas de solidariedade, mas seus próprios filhos não recebem a mesma atenção.

Isabelle representa deste modo boa parcela da classe média a qual questiona as injustiças do sistema, mas que vivem confortavelmente dentro dele. A atuação de Agnés Jaoui traz para a personagem o protagonismo necessário dentro da trama, mesclando dramas pessoais com cenas de humor e ironia, típicos de uma comédia dramática. Outros detalhes se sobressaem, como a competição entre Isabelle e outra professora de francês na mesma instituição, Elke, de ascendência alemã, quando a protagonista passa a sentir seu futuro dentro da escola ameaçado.

Se há outros personagens além de Isabelle que ganham destaque na obra dirigida por Gilles Legrand, são os imigrantes que assistem às aulas. Oriundos das mais diversas nacionalidades, dentre os quais chineses, árabes, africanos, búlgaros e até mesmo um jovem brasileiro, tais personagens chamam atenção por suas apresentações estereotipadas e típicas do modo como a sociedade europeia ocidental os veria. Entretanto, tais estereótipos não são vistos como entraves na narrativa, visto que o filme apresenta caricaturas basicamente em todos os personagens.

Por meio da sátira, o roteiro busca retratar de forma humorística e sarcástica um problema cada vez mais atual na França e em boa parte da sociedade ocidental. O crescente fluxo migratório, os dilemas entre caridade e justiça social, quais as “boas intenções” da protagonista e de todos os demais, são apenas algumas das temáticas representadas no filme. Certamente o tom satírico conduzido ao longo de todo o enredo pode levar a polêmicas em relação ao humor negro e seus limites, mas com tantos conflitos em xeque, um pouco de ironia e humor equilibrados não hão de fazer mal.

Anúncios