Após sucesso com “O Animal Cordial” em 2018, a diretora Gabriela Amaral Almeida estreou nesta semana mais um longa de suspense, desta vez voltado para as dificuldades do nicho familiar.

A trama tem em foco a personagem Dalva, uma menina de 9 anos, órfã de mãe e que mora com seu pai operário, Jorge (Júlio Machado) e com a tia Cristina (Luciana Paes). A garota passa a maior parte do tempo dentro de casa, assistindo a filmes de terror e praticando rituais supersticiosos, pois acredita possuir poderes mágicos.  Sua tia acaba se casando e mudando de casa, deixando Dalva sozinha com o pai, em um relacionamento não muito saudável.

Aparentemente, a origem desta relação distante entre pai e filha se deu com a morte da mãe, alguns anos antes. Jorge não conseguiu superar a perda da esposa, chegando a comentar em certos momentos que preferia que a filha tivesse morrido em seu lugar, enquanto esta já conta ter esquecido as feições da mãe.

Em um ritmo um pouco lento, a trama se desenvolve em torno da menina que acredita poder trazer a mãe de volta à vida com seus poderes fantásticos e que não consegue estabelecer uma relação empática com o pai, frustrado com todas s situações pelas quais se envolve. Enquanto Dalva se resguarda dentro de casa, Jorge trabalha como operário em um edifício em construção.

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Elementos de suspense estão presentes em boa parte da obra, tanto pela atuação dos protagonistas como por aspectos mais técnicos. Entretanto, o roteiro falha em não corresponder totalmente às expectativas do público em relação aos desdobramentos do suspense, frequentemente deixando muitos enigmas sugestivos e a critério do espectador, e sem revelar parte dos reais significados que o filme traz.

A fotografia, entretanto, se torna uma boa ferramenta para a construção de um enredo misterioso, sobretudo nas cenas em que Jorge se encontra na construção onde trabalha, a qual parece sombria e melancólica, tal qual o próprio personagem ao longo de toda a obra.

Apesar do excesso de insinuações sugestivas e enigmáticas, o filme traz diversos temas para discussão, tais como as dificuldades de se lidar com o luto em família, sobretudo para uma criança, bem como o autoflagelamento imposto por Jorge, que sofre devido a todas as pressões a ele impostas, mas que se recusa a expor isso para a sociedade e que o dificulta em muito estabelecer uma conexão familiar com a própria filha.

Tanto implícita como explicitamente na trama, os temas tratados no longa sugerem diversas semelhanças com problemas vividos atualmente pela sociedade brasileira. Diferentemente do primeiro longa de Gabriela Almeida, que buscava retratar as emoções à flor da pele, “A Sombra do Pai” mostra um sofrimento interior, não tão expressivo mas devastador da mesma forma.