A década de 2010, sobretudo nos seus últimos anos, voltou-se para a produção de filmes com protagonistas não-heterossexuais (a classe LGBT) buscando retratar as dificuldades sofridas por tais indivíduos em sua integração à sociedade. Em 2018, o filme “Me chame pelo seu nome”, um romance homossexual entre dois jovens, chegou a concorrer à categoria mais cobiçada do Oscar e venceu o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado.

Uma das estreias da semana, “O Mau Exemplo de Cameron Post” é mais um dos filmes com essa temática.

Entretanto, o diferencial deste para as obras do mesmo gênero é o enfoque dado às terapias “religiosas” para o tratamento de uma dita doença de homossexualismo. Com uma trama situada em 1993, quando pouco se discutia a respeito do tema, a jovem Cameron Post mantém uma relação secreta e homo afetiva com sua colega Coley. Quando o romance é descoberto, Cameron, que vive com sua tia conservadora, é internada pela própria em um centro de terapia coordenado por um reverendo e sua irmã. Neste local, Cameron convive com outros jovens em dúvida de sua própria sexualidade e é submetida a situações desconfortáveis e até mesmo humilhantes por parte dos “terapeutas”.

Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Desiree Akhavan, que buscou retratar a experiência de Cameron no centro de terapias “God’s Promise”. Entretanto, o roteiro opta por deixar de lado de certo modo a discussão de relações homossexuais e dá um enfoque para as comuns crueldades ocorridas ao longo das terapias com adolescentes e jovens.

Deixando de lado a discussão acerca da ética de tais tratamentos em relação à liberdade individual de cada um e à identidade de gênero, o que a trama mostra é como os jovens ingressavam no centro em um estado de confusão psicológica e os terapeutas conseguiam aumentar em muito suas dúvidas em relação à própria identidade. Uma das principais terapeutas, irmã do reverendo “ex-gay”, revela frequentemente tanto a Cameron como aos demais, como eles são culpados por este estado “deplorável” e que permitiram a entrada do pecado em seus pensamentos. Em suma, “perveteram-se” por vontade própria, e por isso “são pessoas ruins”.

Chloe Grace Moretz protagoniza Cameron de modo a personificar toda a angústia sofrida pela adolescente. Já em dificuldades para descobrir quem ela realmente é no mundo (dilema muito comum nos anos da adolescência), o contato com terapeutas de intenções difíceis de serem compreendidas apenas intensifica ao máximo a sensação de insignificância e de baixa auto-estima na personagem. Ainda que a direção se foque claramente na protagonista, os demais jovens também são alvos deste processo, todos com problemas particulares em relação à construção de suas identidades.

A atuação de Moretz e dos demais adolescentes é um dos pontos mais fortes do filme, cujo roteiro acaba se perdendo em certos momentos e perdendo o suspense por ser pouco inovador. Ainda assim, os closes na figura da jovem atriz demonstram de uma forma singular o sofrimento pela qual a personagem passa ao longo de toda sua estadia no âmbito religioso (ou não tão religioso como deveria).

Também pelo fato de se tratar de um enredo relativamente leve acerca de temáticas intensas e graves, a direção de Desiree opta pelo uso de fotografia e cenário coloridos e rústicos na maior parte do tempo, condizentes com a situação de isolamento de todos, mas em busca de transmitir uma sensação de tranqüilidade em meio a tantas angústias.

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