Saí do cinema como quem acaba de ver um filme da sessão da tarde: leve, otimista, desejando discutir, com os meus amigos, os dilemas do amor, do desejo e da paixão. Em espanhol, é claro! Ou seja, na justa medida para um entretenimento inteligente.

À primeira vista, inofensivo, “Um amor inesperado” é previsível (apesar do título), mas capaz de tocar em temas profundos ao mesmo tempo em que tira sarro deles, renovando aquela nossa fé na humanidade, ao deslocar um pouco as coisas da ordem comum. Se os protagonistas já não estivessem na casa dos 60, poderíamos descrevê-lo como comédia romântica. Mas os diálogos ágeis, que tanto me encantam no cinema argentino, inspiram mais ironia e melancolia do que romantismo. Ainda que a ideia de buscar “alguém que nos desperte um estado apaixonado que se perdeu no tempo” seja bem romântica.

De qualquer modo, não é uma comédia que suscite nenhuma grande gargalhada. Tampouco um drama, apesar de eu ter vertido uma ou outra lágrima furtiva (ah, a beleza do desencontro nos relacionamentos – quando estamos a uma distância segura dos desastres!).

É bem verdade que a receita parece simples, mas só dá certo mesmo quando se tem um elenco à altura dessa responsabilidade. E, pra isso, o diretor argentino Juan Vera tinha a dupla Ricardo Darín e Mercedes Morán. Eles são Marcos e Ana, um casal que entra em crise depois de completar bodas de prata, depois de ver o filho sair de casa pra estudar no exterior, depois que percebem que talvez ainda haja mais aventuras pra viverem do que o roteiro da vida que estavam escrevendo juntos. E, assim, sem drama, resolvem se separar.

 

O pai de Marcos, a certa altura, pergunta:

– Para quê?

Não, ele não pergunta o motivo da decisão, o passado. Ele pergunta sobre o futuro. Para quê?

Para conhecer gente nova no tinder? Para conversar num chat? Para abrir uma conta no instagram? Para mudar de casa? Para descansar das mesmas velhas reclamações e iniciar uma nova leva de insatisfações? Para olhar com novos olhos as mesmas velhas coisas, pessoas, objetivos?

Sim, olhar sob outra perspectiva pode ser revolucionário pela transformação que opera em nossas mentes e em nossos corações.

Repare no casal de velhos que se apaixona e dança. Repare no quão patéticos parecemos ao buscar, desesperadamente, por um sentido que não virá de nenhuma situação fora de nós mesmos. Repare nos riscos reais envolvidos nos novos meios virtuais de interação social. Repare na discussão sobre para quê se cria os filhos. Repare em como a literatura já tratou a solidão do homem que envelhece. Repare no estranhamento de ouvir, de repente, “Você é sim, e nunca meu não”…

Repare em Mercedes Morán: uma atriz que mostra entrega e inteireza, com rugas, com saias pelos joelhos, com luzes no cabelo. Uma atriz que você já pode ter visto em “Sueño Florianópolis” (Ana Katz, 2018, em coprodução brasileira), em “Neruda” (Pablo Narraín, 2016) ou em “Diários de motocicleta” (Walter Salles, 2004).

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