Assistir ao filme “Raiva”, uma das estreias desta semana é uma experiência peculiar.

Primeiramente por sua fotografia e montagem se assemelharem às produções primárias do cinema, em preto e branco. Não bastasse isso, o enredo trata da vida de uma família de camponeses em uma vila no interior de Portugal nos anos 1950, um cenário pouco comum na história do cinema.

O ponto inicial da trama é uma noite agitada nas redondezas da vila na qual Palma, o patriarca da família de camponeses, mata dois dos homens mais ricos da cidade. Em seguida às cenas iniciais, o filme transporta o espectador para a origem dos acontecimentos que culminariam na noite fatídica.

Os personagens que regem a trama são basicamente Palma e sua família, composta por mulheres fracas e magras e que se vestem com trapos negros. Palma é o único homem na família, além de seu filho pequeno, que tem debilidade física e mental.

Após o espectador entender que a cena inicial é na verdade o fim do filme, eliminando de certa forma grandes expectativas em relação ao roteiro, é possível focar nas figuras dos personagens, em geral muito bem trabalhados.

A figura de Palma não é meramente o patriarca e a garantia do mínimo sustento da família, mas sobretudo a personificação de um espírito heroico e vingativo. Em relação às mulheres, sendo elas a esposa, a sogra e a filha, assemelham-se muito entre si, caracterizando-se basicamente por suas roupas desgastadas, por sua melancolia pouco emotiva e conformidade. O filho doente não parece ser mais do que mais uma dificuldade da família dentre a tantas outras, visto a indiferença com que é tratado por todos.

A casa em que vivem é também um reflexo de todo seu modo de vida. Não há praticamente nenhuma mobília, sentam-se em tocos de madeira e a comida é basicamente trazida da caça e colheita de Palma.

A linguagem por vezes complexa adotada pelos personagens para representar o interior lusitano da década de 1950, somado à ausência de trilha sonora traz ao filme um ritmo um tanto lento, mas que retrata justamente o que a direção de Tréfaut busca passar: uma rotina miserável e infindável.

Notas da editora:

Rodado inteiramente no Alentejo, Raiva conta com as interpretações de Isabel Ruth, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, José Pinto, Adriano Luz, Kaio Cesar, Diogo Dória, Catarina Wallenstein e Rogério Samora. O filme conta ainda com as participações especiais do catalão Sergi López, no papel do contrabandista, e de Herman José, no papel de padre. Destaque ainda para a participação de Lia Gama, num papel que serve de homenagem a Nicolau Breyner, que integrava o elenco original do filme, mas que acabaria por falecer na véspera das filmagens.

O filme é protagonizado por um não-ator, Hugo Bentes, natural de Serpa, escolhido pela proximidade que tem com a história, com a região, e sobretudo pelo orgulho com que encarna a personagem. Hugo Bentes foi jogador de futebol, tem preparação militar, é músico e faz parte de grupos corais alentejanos. Participou como cantor no documentário Alentejo, Alentejo de Sérgio Tréfaut.

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O filme é baseado num clássico da literatura portuguesa do século XX, ‘Seara de Vento’, de Manuel da Fonseca. Publicado em 1958, foi inspirado por um acontecimento trágico que ocorreu no Cantinho da Ribeira, lugar localizado na freguesia de Trindade, em Beja, nos anos 1930.

A região era oprimida pela a força das oligarquias (as famílias ricas) que oprimiam terrivelmente os camponeses, subvertendo inclusive as relações familiares. Acusado injustamente de roubo pelo lavrador/hipotecário, um chefe de família fica desempregado e envereda pelo contrabando, apesar dos protestos da filha. A mulher, ludibriada por um interrogatório policial, denuncia o marido, suicidado-se depois. O camponês, depois de alvejar a tiro o lavrador e o seu filho, refugia-se em casa, onde é morto pela polícia.

Sobre o Alentejo:

A menos de cem quilômetros de Lisboa, a região é ainda hoje uma vastidão de campos, planícies verdejantes e praias de areia dourada, natureza exuberante e lagos magníficos. Cheio de pequenas vilas que parecem saídas de contos de fada, o Alentejo é a maior região portuguesa e dizem que é a mais autêntica também. Seu patrimônio histórico, cultural e arquitetônico impressiona: construções que remontam ao período romano, igrejas e castelos medievais e até mesmo resquícios do período pré-histórico se espalham pelos seus 27.000 km2.
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