Quando conheceu meu pai, minha mãe era universitária (fazia Direito) e, como tinha concluído o Magistério, dava aulas de alfabetização numa aldeia na região de Laranajeiras do Sul, no PR. Ela faz parte do famoso Projeto Rondon, que leva universitários aos rincões do país.

Anos depois, na minha primeira Campus Party, em 2009, eu conheci indígenas que faziam um outro caminho de aprendizado: eles buscavam competências para usar a internet e as novas mídias para conectá-los, preservar suas culturas e seus idiomas. Naquele ano fomos voluntários do Campus Verde e naquele cantinho da maior festa geek do mundo (será que ainda é?) nós pudemos conviver com os líderes e mudar muitos conceitos sobre os índios do século XXI.

Lá se vão 10 anos e neste ano tenho a alegria de ver que vários indígenas estão alcançando, finalmente, os mesmos direitos que os “outros” brasileiros, ou seja, nós.

Que bênção eu poder ver isso acontecer em tão pouco tempo. Mas parece pouco só para mim, para eles é uma eternidade de privações de direitos e de discriminação. Oro para que isso mude e sejamos realmente todos iguais perante a lei. E eu também acompanho isso, pois temos que estar atentos para garantir que as coisas caminhem como nós achamos que é melhor.

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Chegar é mais fácil do que permanecer.

A Unicamp, universidade para a qual vão os alunos do vídeo que postei acima, tem alguns projetos para ajudar neste sentido. Em novembro de 2018, na terceira edição dos “Seminários de Inclusão Indígena: Ciclo de Saberes Ancestrais” promovido pela Pró Reitoria de Graduação (PRG) e pelo Grupo de Trabalho (GT) Indígena para qualificar a permanência indígena na Universidade o encontro traz para debate o tema: “Entrei… e agora? – Projetos acadêmicos e permanência indígena”.

Como manter-se sem abandonar o curso? Esta questão é, certamente, central na discussão sobre o compromisso da universidade em oferecer condições para que os estudantes que ingressam tenham plenas condições de concluir os cursos escolhidos.

Os Seminários trazem para o centro do debate, indígenas de diferentes formações acadêmicas com o objetivo de dialogar conjuntamente, relatando experiências, avanços e retrocessos que compõem esta nova realidade que a presença indígena nas universidades vem suscitando em todas as regiões brasileiras.

No âmbito dos programas de auxílio, há ainda uma Bolsa Permanência, que atende de modo diferenciado indígenas e quilombolas, com recurso pago diretamente ao graduando por meio de um cartão de benefício. Em 2018 o valor da bolsa era de R$ 400, um valor que não sei como pode manter um aluno morando longe, pois é o mínimo de custos que meu filho que faz universidade federal no ABC e mora em nossa casa (ou seja, sem custos de moradia e alimentação fora da universidade) tem para transporte, almoço, xerox, dentre outras coisas básicas da vida de um estudante. Mas, por outro lado, é o valor da bolsa padrão para estudantes dentro da universidade pública e talvez, juntando duas bolsas, dê para tentar sobreviver.

Honestamente, não sei..

Mas Sam, como fazem para ingressar? São cotistas?

Sim! Como as cotas raciais.

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Mas, ao contrário das cotas para negros e pardos, os processos de seleção para ingresso de indígenas nas universidades são muito variados.

A maioria das instituições criou metodologias específicas, no geral com a indicação dos candidatos feita pelas comunidades e suas organizações indígenas, seguida de provas específicas e entrevistas ou apresentação de memoriais.

No âmbito do governo federal, nas universidades federais, o principal acesso se dá com a nota do Enem e por meio de processos como Sisu, para instituições públicas, e Prouni, com bolsas para instituições privadas.

Segundo o MEC informou em março de 2018, por meio do Sisu, sistema pelo qual instituições públicas de educação superior oferecem vagas a candidatos participantes do Enem, a Lei de Cotas reserva um percentual de vagas para indígenas. O número varia de acordo com o índice populacional dos indígenas apresentado no último Censo do IBGE para aqueles candidatos que estudaram em escolas públicas e que se autodeclararam indígenas.

Além da Lei de Cotas, que só incluiu os indígenas em 2012, existem alguns vestibulares exclusivos para indígenas.

No Paraná existe o Vestibular para Povos Indígenas, que é unificado entre a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e as estaduais de Maringá (UEM), Londrina (UEL), Ponta Grossa (UEPG), Oeste do Paraná (UNIOESTE), Centro-Oeste (Unicentro), do Paraná (UNESPAR) e do Norte do Paraná (UENP). Esse processo seletivo acontece uma vez por ano, na qual as universidades se unem e disponibilizam as vagas de acordo com o quadro de vagas existentes.

Pelo país, mesmo não sendo obrigatório, outras instituições como as universidades federais de Brasília (UnB), Amazonas (UFAM), Pará (UFPA), Roraima (UFRR) e São Carlos (UFSCar) também possuem vestibular especifico para índios. Neste caso, cada universidade é responsável pelo seu exame.

Veja como era (em 2018) o vestibular das universidades citadas:

UnB
Podem se inscrever: Estudantes Indígenas que tenham cursado ou estejam cursando o ensino médio em escolas públicas.
Documentos exigidos: Sendo classificado no teste, o estudante passa então por uma entrevista. Nesta etapa, que é eliminatória, os candidatos deverão mostrar aos avaliadores seu conhecimento e envolvimento com a realidade indígena.

UFSCar
Podem se inscrever: Candidatos Indígenas.
Documentos exigidos: Declaração de Etnia e Vínculo com Comunidade Indígena, assinada pela liderança da comunidade indígena e certificada pela unidade local ou regional da FUNAI.

UFAM
Podem se inscrever: A UFAM oferece o curso em Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável para Indígenas com ensino médio completo.
Documentos exigidos: O candidato precisa ser cadastrado em alguma instituição ou associação indígena.

UFPA
Podem se inscrever: Candidatos Indígenas. A UFPA oferece ainda incentivos para a permanência dos estudantes como Auxilio Permanência no valor de R$ 310 e Auxílios Moradia no valor de R$ 300.
Documentos exigidos: RG, CPF e histórico escolar e declaração de etnia.

UFRR
Podem se inscrever: Candidatos Indígenas, com ensino médio completo.
Documentos exigidos: RG, CPF, Histórico Escolar do Ensino Médio e Registro Administrativo de Nascimento de Índio – RANI, expedido pela FUNAI.

Uma mudança no tecido social das universidades brasileiras está nos relatórios do Censo da Educação Superior divulgado pelo Ministério da Educação em 2017. A pesquisa mostra que o número de indígenas matriculados em instituições públicas e privadas cresceu 52,5% de 2015 para 2016, passando de 32.147 para 49.026.

Em menos de sete anos, a quantidade de indígenas matriculados nas universidades cresceu mais de cinco vezes. O aumento na procura por formação acadêmica entre os povos indígenas deve-se a necessidade de formar profissionais qualificados e inseridos em contextos políticos e socioculturais e que ainda colaborem com a luta pela conquista da autonomia e da sustentabilidade de seu povo.

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E, para completar este breve panorama, vale relembrar: neste ano, uma indígena é Secretária Nacional de Igualdade Racial. Sandra Terena, que chegou com uma agenda clara:

“O nosso objetivo é fazer o melhor governo da história do Brasil para os povos indígenas. Trabalharemos a cada minuto para levar as políticas públicas para a ponta, em nossas aldeias. Este governo vai dialogar diretamente com as comunidades. Este é um governo da inclusão. É a primeira vez na história do Brasil, desde a Colônia, o Império e a República, que uma mulher indígena assume uma secretaria nacional em nosso país.”

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Ela é minha conterrânea e colega de profissão. Natural de Curitiba-PR, onde o pai servia ao Exército, Sandra é formada em Comunicação Social pela Universidade Positivo e tem pós-graduação em Comunicação Audiovisual pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Vale lembrar que os indígenas existiam (e ainda existem) em todo o Brasil, não são exclusivos da Amazônia!

Neste vídeo do excelente e divertido canal Buenas Ideias, tem um panorama dos indígenas dos pampas: os Charrua, os Minuano e os Guarani.

Ah, e como estamos na semana do Valentine’s Day, uma historinha de amo, do casal mais brasileiro da história – o náufrago português Diogo Álvares (o Caramuru) e a “princesa” tupinambá Paraguaçu (Catarina).

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