Se você tem na sua timeline ou entre seus amigos pessoas interessadas em educação (para todos, sem se prender a apoios ou boicotes a governos), viu a celebração porque em 2019 (que mal começou) dois professores brasileiros foram  finalistas do Global Teacher Prize, premiação anual considerada o “Nobel” da educação.

Mais do que o prêmio – de US$ 1 milhão! – concedido a um professor excepcional que tenha feito uma contribuição extraordinária para a profissão, em 2014 a Varkey Foundation criou o Global Teacher Prize  com o intuito de elevar o status da profissão do educador.

Ao celebrar os melhores professores, aqueles que inspiram seus alunos e a comunidade ao seu redor, a Fundação acredita que uma educação vibrante desperta e dá suporte a todo o potencial dos jovens. O status dos professores em nossas culturas é fundamental para o futuro global.

De onde vem este dinheiro?

O Global Teacher Prize — o ‘Prêmio Nobel’ da educação — é patrocinado pela Sua Alteza o Xeique Mohammed bin Rashid Al Maktoum, vice-presidente e primeiro ministro dos Emirados Árabes Unidos e governador de Dubai

Não é a primeira vez, mas toda vez merece destaque nosso, concorda?

Em 2018, Diego Mahfouz Faria Lima foi indicado por seu trabalho na Escola Municipal Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto (SP), da qual é diretor.

Antes cheia de problemas com vandalismo, evasão de estudantes e até brigas na porta e tráfico de drogas, a escola hoje é referência na região e praticamente zerou a evasão com ações que, segundo o professor, visavam “dar voz aos alunos e torná-los protagonistas”. A escola passou a abrir aos fins de semana para oferecer aos alunos aulas de música clássica e outras atividades. O professor eliminou as suspensões e advertências e passou a promover mais o diálogo. Faria Lima destacou a criação de um comitê de mediação do conflito, onde as brigas, que antes ocorriam na porta do Darcy Ribeiro, foram eliminadas sem entrar nas vias de fato. “Os próprios alunos passaram a identificar situações como conflitos, bulliyng e a convocar as partes envolvidas para o diálogo”, explicou.

No mesmo ano, o paranaense Rubens Ferronato, ficou entre os 50 melhores na premiação e, mesmo sem estar no Top 10, merece nosso destaque. Meu conterrâneo é o criador e desenvolvedor da tecnologia social “Multiplano” – método usado para ensinar matemática a alunos com deficiência visual e também aos que enxergam, sem que estes necessariamente conheçam a escrita em Braille. A metodologia que é reaplicada em mais de 200 escolas do país foi vencedora do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social em 2003, na Categoria Educação. Como premiação naquele ano, a inciativa foi registrada em vídeo documentário, além de receber R$ 50 mil, para investimento no aperfeiçoamento e na expansão. A tecnologia social Multiplano está presente no Banco de Tecnologias Sociais (BTS) – uma base de dados online que reúne aproximadamente mil metodologias reconhecidas por promoverem a resolução de problemas comuns às diversas comunidades brasileiras, aptas e disponíveis para reaplicação. Dessas, 340 são do tema Educação.

Em 2017Wemerson da Silva Nogueira, professor do Espírito Santo, foi um dos dez finalistas do prêmio. Na época, com apenas 26 anos, ele já tinha ganhado mais de 10 prêmios como educador, por isso sua indicar ao se deu por trajetória profissional como um todo e não por um projeto individual.

Nascido em Nova Venécia, interior do estado do Espírito Santo, e filho de agricultores, Nogueira se formou em Ciências e Química em 2012, em um curso à distância pela Universidade Metropolitana de Santos (Unimes). Começou a carreira dando aulas de Ciências na rede pública municipal de Nova Venécia e depois ensinou Química na mesma cidade, depois foi lecionar Química e Ciências para o Ensino Fundamental e Médio no município de Boa Esperança, também no Espírito Santo. Desde o começo deste ano ele dá aulas na Faculdade Multivix, em Vitória, capital do estado. Ele ensina Química a alunos das Engenharias e Educação Ambiental na Pedagogia.

A vontade de inovar no ensino veio em 2012, quando ele começou a dar aulas e se deparou com uma situação escolar difícil, com alunos desinteressados pelas aulas e um ambiente com propagação de drogas e criminalidade. “Eu vi a necessidade de fazer algo que pudesse melhorar a vida deles”, conta, sobre os estudantes. Umas das iniciativas criadas foi um programa pelo qual os próprios alunos difundiam na comunidade e em casa o combate às drogas e ao crime.

Além de iniciativas como estas, Wemerson da Silva Nogueira sempre levou os estudantes para fora da sala de aula e muitas vezes ensinou enquanto passeava com o grupo pela comunidade ou embaixo de uma árvore. Em Nova Venécia, quando abordava na escola o tema da água, por exemplo, levou os alunos à estação de tratamento de água local. “Eles não sabiam como a água saía suja do rio e chegava limpa à casa deles”, relata o professor.

Wemerson da Silva Nogueira – Global Teacher Prize 2017 – Top 10 Finalist from Varkey Foundation on Vimeo.

Dois professores brasileiros, Débora Garofalo, de São Paulo (SP), e Jayse Ferreira, de Itambé (PE), estão entre os 50 finalistas do prêmio Global Teacher Prize 2019. Selecionados entre mais de 10 mil candidatos de 179 países do mundo, os dois já são vencedores do último Prêmio Professores do Brasil, realizado pelo MEC (Ministério da Educação), lecionam em escolas públicas e levam mais que o conteúdo acadêmico para suas aulas.

As atividades lideradas por Débora e Jayse são baseadas em projetos, conectadas à comunidade onde estão inseridos e oferecem momentos para os alunos se expressarem e assumirem o papel de protagonistas de seu aprendizado.

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Débora Garofalo é formada em letras e pedagogia com pós-graduação em língua portuguesa, leciona tecnologia e robótica na EMEF Almirante Ary Parreiras. Em suas aulas com estudantes de 6 a 14 anos, a ideia é fomentar o protagonismo do aluno a partir da aprendizagem criativa, das experiências e conhecimentos prévios dos alunos e do uso reflexivo das tecnologias.

Seu premiado projeto de robótica começou driblando a falta de kits com materiais de sucata, como garrafas, tampinhas e canudos servem como ferramentas para construir carrinhos e brinquedos automatizados. Mais de uma tonelada de material eletrônico já foi usada no sue projeto, e a metodologia criada por ela foi incluída nas diretrizes de formação adotadas pelo CIEB (Centro de Inovação para Educação Brasileira) e serve como referência para outros professores interessados em educação mão na massa. Débora também foi finalista de Aprendizagem Criativa da Fundação Lemann/MIT Media Lab e do Prêmio Claudia na categoria políticas públicas. Para disseminar a prática em outras escolas, ela já realizou formações no Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Foz do Iguaçu (PR), Salvador (BA), Recife (PE) e Manaus (AM).

Jayse Ferreira é formado em educação artística com pós-graduação em psicopedagogia. É professor há 10 anos e já comandou turmas de ensino fundamental 2, ensino médio e EJA, lecionando atualmente educação artística na Escola de Referência em Ensino Médio Frei Orlando, em Itambé (PE). Em 2014, foi vencedor da categoria ensino médio do Prêmio Professores do Brasil com  o projeto “Eu sou uma obra de arte: etnias do mundo”, que trabalha a valorização das diversas etnias dos alunos por meio de fotografias.

O trabalho começou a partir de uma conversa informal com os estudantes, que tinham dificuldade para se enquadrar no quesito raça ao responder o questionário socioeconômico do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Na internet, descobriu o livro de fotografias “Face a face, uma jornada por povos do mundo”, de Alejandro Szanto de Toledo (publicação independente), que retratava costumes de povos dos cinco continentes. Os alunos repararam como seus traços eram semelhantes aos daqueles povos. O professor, então, os convidou a buscar na escola traços de outras etnias.

Na parte prática do projeto, cada aluno foi devidamente caracterizado e fotografado segundo a etnia com que mais se assemelhava – havia a ruiva “escocesa”, o negro da Namíbia, etc. As atividades e o trabalho de autoconhecimento com os alunos desfez a ideia de que uma raça é mais importante ou mais interessante que a outra. Ao final do projeto, a escola registrou diminuição da evasão escolar e os alunos obtiveram acolhimento e respeito independentemente de suas características físicas.

Jayse também teve um outro projeto, sobre cultura pop no qual estudantes produziram curtas-metragens baseados em livros ou jogos que gostavam, tais como Harry Potter, Percy Jackson, Minecraft e LOL (League of Legends). Alguns desses vídeos chegaram a mais de 20.000 acessos no YouTube.

Você conhece o trabalho de outro professor que merece destaque? Conte para nós!