Você já programou seu fim de semana cultural? O blog @avidaquer teve a oportunidade de conferir, em primeira mão, algumas estreias que valem a sua atenção.

 

ESCOBAR – A TRAIÇÃO

O aguardado “Escobar – a traição”, traz a saga do traficante colombiano vista pelos olhos de uma de suas amantes, uma famosa apresentadora de tevê, Virginia Vallejo. O filme é uma versão de seu livro “Amando Pablo, Odiando a Escobar” e conta, como protagonistas, o casal da vida real Javier Bardem (também produtor do filme) e Penélope Cruz. Quem os viu em “Vicky Cristina Barcelona” sabe a química que eles também têm, na telona. Apesar da gente esperar ouvir espanhol a qualquer momento (o filme é falado em inglês), acompanhar o trabalho desses atores numa história que mistura violência, política latinoamericana e amor é o melhor dos motivos para comprar seu ingresso!

Pra quem viu, recentemente, a série Narcos (ou outras adaptações da biografia de Pablo Escobar) e acompanhou a relação de forças que possibilitou o surgimento e morte dessa figura tão controversa quanto carismática, o filme não apresenta muita novidade. O ângulo privilegiado que Virginia parece nos oferecer não encontra  aprofundamento no roteiro, infelizmente, sendo apenas pincelado: a gente sabe que a jornalista, ao ver o que o dinheiro de Pablo poderia fazer pelos rincões da Colômbia, abdica de fazer muitas perguntas. Mas também sabe que ela gostava de presentes bem caros – que custaram, inclusive, o seu sossego, no avançar do romance. A gente fica imaginando o tamanho da influência que ela tinha e os sentimentos contraditórios que deviam acompanhar suas decisões, pessoais e profissionais. Quem sabe encontremos mais respostas no livro!

 

HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA NÃO CONTAVA

Em pouco mais de uma hora, a diretora Fernanda Pessoa conta uma nova história do Brasil, no cinema, em seu primeiro longa documental. Isso quer dizer que ela selecionou imagens e sons de vários filmes brasileiros da década de 70 e roteirizou esses fragmentos, apresentando-nos uma nova perspectiva da pornochanchada, esse gênero popular e marginalizado que abrigou muitos artistas na época da ditadura civil-militar. Os temas com os quais ainda lidamos estão lá: a desvalorização da mulher e o preconceito contra o homossexual; o machismo e o capitalismo; as mazelas da economia, as greves, as promessas do milagre econômico, as sequelas do êxodo rural e da industrialização; e a repressão. Sim, alguns filmes traziam o tema da tortura e da repressão política em plena vigência do AI-5!

A montagem cuidou para que as inevitáveis cenas de nudez e assédios sexuais encontrassem um bom termo, sem ofender sensibilidades, mas usando-as de forma divertida e crítica. A greve das prostitutas em “Palácio de Vênus” e a cruzada de pernas em “Café na cama” são bons exemplos. Quem quiser saber mais sobre os filmes que compõem esse mosaico, pode ver datas, diretores e sinopses no site historiasquenossocinema.com.

Para aprender sobre a construção da nossa identidade como país, para despir preconceitos, para celebrar a arte que se faz com documentos históricos que, de datados, não têm nada…

 

GAUGUIN – VIAGEM AO TAITI

‘Gauguin” é um filme lindo; cada frame é uma pintura! Dirigido por Édouard Deluc, o filme parte de Noa Noa, o diário de viagem que o pintor Gauguin escreveu em 1893. Para viver a busca, os tormentos e a resistência furiosa do artista, o filme conta com o talento do ator Vincent Cassel. O filme é quase todo ele, em closes ora entediados com os círculos artísticos parisienses, ora empolgados com a reconexão à natureza selvagem do Taiti, ora exaustos de doença ou frustração. Em paisagens de tirar o fôlego, no sol ou na chuva, no riacho ou no topo da montanha.

O diretor, em entrevista, declarou que

“você não se torna um artista porque é legal, mas porque você não pode ser outra coisa”

E esse é o espírito que move Gauguin: ele deixa Paris porque não encontra mais motivação para criar por lá, sente-se sufocando. Deixa mulher e filhos, que se recusam a embarcar nessa sua viagem rumo ao “primitivo”, quase sem dinheiro no bolso. Deixa-se guiar por vozes interiores até encontrar sua musa, os fantasmas de um povo longínquo, a possibilidade de morrer de fome, de infarto ou de ciúmes. Como uma criança, Gauguin não tem medo do ridículo. O filme traz a história desse artista, cujas criações sobreviveram ao tempo, de forma romanceada, mas traz também muitas reflexões sobre o papel da arte, a necessidade da arte e sobre um mundo em declínio pela invasão do branco, do missionário, do capitalismo. A chegada do pintor no Taiti coincide com a morte do último rei maori. Gauguin queria transformar-se num selvagem, queria o êxtase que vemos em sua paleta de cores vívidas. Mas ao tentar encontrar uma nova identidade, também se perde e também é expulso.

“Eu queria fazer um filme de aventura, um western”, disse Édouard.

Eu acho que o diretor conseguiu. Gauguin é um cavaleiro solitário, cheio de dor e de paixões, que atravessa os séculos e nos encontra pra devolver a pergunta: o que você procura?

 

SÃO MANUEL BUENO, MÁRTIR

Se você é fã de boas histórias e mora em São Paulo (ou está, por aqui, a passeio) não pode perder essa peça que volta ao teatro, em nova temporada. “São Manuel Bueno, mártir” é uma criação do grupo Sobrevento, especializado em teatro de bonecos, com sede do ladinho do metrô Bresser. Três atores e três músicos contam a história de Dom Manuel, um padre que vive em martírio pela dúvida da existência de Deus, da vida eterna e de todo ensinamento que efetivamente cultiva, na prática cotidiana da aldeia que o tem como guia.

O público fica em arquibancadas suspensas, como num ringue, para ver a ação que se desenrola ao redor de uma mesa redonda. Narrando e manipulando bonecos de madeira, às vezes julgamos estar numa partida de xadrez, num jogo, tentando adivinhar os próximos lances. Às vezes, julgamos estar numa sala de cinema, tendo a iluminação e o movimento da mesa-palco como aliados, conduzindo nosso ponto de vista como a câmera faz.  Às vezes, julgamos estar num show, com violão, cello e bandolim, tentando adivinhar as músicas da próxima festa. Aliás, como é que pode uma festa de São João inteirinha, com fogueira, fogos de artifício, balão e tudo, caber em cima de uma mesa? Só mesmo no teatro…

Essa pequena joia está em cartaz aos sábados e domingos, às 20hs, até o dia 23 de setembro. A entrada é gratuita, porque é um projeto contemplado pela 31ª edição do Programa Municipal de Fomento para a Cidade de São Paulo. As reservas podem ser feitas pelo email <info@sobrevento.com.br>. Chegue um pouquinho mais cedo e aproveite o café do espaço (tem também quiche, bolo e vinho).

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