(Foto: @zhenhappy)
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Imaginem que uma pesquisa investigou como valores culturais são transmitidos nas famílias e qual o impacto da cultura no aprendizado, concluindo que no estudo de matemática, descendentes de ibéricos foram superados pelos de famílias japonesas, germânicas, leste-europeias e italianas, e pelos de famílias mistas em que ao menos um pai não é ibérico.

Quando pai e mãe descendem de japoneses, a vantagem em matemática equivale a um ano de aprendizado.

http://www.avidaquer.com.br/haafu-ou-junsui/

 

Seus autores, os economistas Daniel Lopes, Geraldo Silva Filho e Leonardo Monasterio, adotaram metodologia inédita no país para identificar sobrenomes de origem ibérica, japonesa, germânica, leste-europeia, italiana e sírio-libanesa em um estudo que usou dados de todas as escolas da rede.

É louco, mas eu, que sempre fui “acusada” de “roubar vagas” na escola, era taxada assim com razão. Cresci estudando em escolas e em universidade públicas (estadual e federal) e sempre era apontada na classe, com desconhecidos dizendo:

– Desconta a vaga dela ali, japonês sempre passa – sempre tira nota dez, sempre vai bem e por aí afora. 

Bom, além de descendente de japonês, eu tenho sangue germânico (levemente eslavo, pois minha família passou 150 anos na Rússia depois de sair da Alemanha e antes de vir pro Brasil), então entro na categoria duas vezes. Meus filhos, que têm também sangue italiano, ganham mais um ponto?

Não sei, mas o fato é que eu me identifiquei com os descendentes de japonês entrevistados por Ana Estela de Souza Pinto na reportagem que contava dos resultados do estudo.

E sou mesmo parte do padrão de família estudada, que não pensa nos imigrantes e seus filhos, mas na terceira geração ou acima dela. Meus avós paternos vieram do Japão no começo do século XX e meus bisavós maternos de uma colônia alemã na Rússia no final do século XIX.

http://www.avidaquer.com.br/juca-hoffmann-meu-avo-jornalista/

 

Segundo Leonardo Monasterio, Daniel Lopes e Geraldo Silva Filho, pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os alunos que compõem o estudo e os resultados

“São crianças nascidas e criadas no Brasil, sob as mesmas instituições, mas com herança cultural diferente. A conclusão é que existe um “prêmio de ancestralidade” na performance educacional. “

Segundo a reportagem que li, um dos novos projetos dos economistas do Ipea e do Inep é correlacionar os sobrenomes com resultados de questionários de competências socioemocionais. Entre as hipóteses estão a de que algumas culturas são menos imediatistas —aceitam esforço e sacrifício no presente para obter resultados no futuro.

Por que este estudo é valioso?

Ao investigar as causas do “prêmio ancestralidade”, podemos atenuar as desigualdades e achar formas para que os de culturas que não se refletem em desempenho escolar consigam compensar a defasagem na escola, para que todos os grupos tenham oportunidades semelhantes.

Um maior grau de consciência (que envolve disciplina, responsabilidade e autonomia) também tem sido relacionado a melhor desempenho em matemática em pesquisas internacionais.

http://www.avidaquer.com.br/e-hoje-centenario-da-imigracao-japonesa/

 

Destaco aqui alguns itens do estudo (a íntegra pode ser lida, em inglês, aqui):

  • Origem de mais de 71 mil sobrenomes foi levantada com base em registros do Museu de Imigração paulista e nos censos históricos americanos, entre outras fontes; outros 220 mil tiveram sua origem identificada por programas de computador escritos especialmente para isso
  • A referência permitiu identificar a ancestralidade de 74.608 sobrenomes dos alunos e de seus pais, obtidos no Censo Escolar de 2013 e de 2015
  • Como sobrenomes ibéricos foram adotados por ex-escravos, de cultura africana, o grupo ibérico no estudo inclui brancos, pardos e amarelos
  • A pesquisa comparou o desempenho dos estudantes em exames que são avaliados sem identificação do aluno; em matemática, mais de 2 milhões de provas foram computadas
  • Os dados do MEC permitiram acompanhar um mesmo aluno ao longo do tempo
  • Para evitar interferências de outros fenômenos nas notas, os pesquisadores compararam alunos de mesmo nível socioeconômico e defasagem idade-série semelhante, e isolaram o possível impacto de mudança de escola
  • Foram avaliadas notas dentro de uma mesma turma, o que iguala características como o professor, a estrutura física, a presença de bagunceiros ou a possibilidade de a escola separar os alunos por classe de acordo com o desempenho
  • Na análise do desempenho dos alunos no quinto ano, os economistas controlaram pelo resultado obtido no terceiro ano, ou seja, compararam alunos cujo resultado havia sido semelhante

Leia também:

http://www.avidaquer.com.br/mulheres-no-stem/

 

 

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